A inclusão dos riscos psicossociais na NR-1 evidencia uma urgência: cuidar das equipes passa, necessariamente, por cuidar dos líderes

O Ministério do Trabalho e Emprego aprovou em 27/08/2024, a Portaria MTE n° 1.419 trazendo alterações no capítulo “1.5 Gerenciamento de riscos ocupacionais” da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) – Disposições Gerais e Gerenciamento de Riscos Ocupacionais, para incluir a gestão dos fatores de riscos psicossociais, obrigação que começa a valer para efeito de fiscalização e sanções, a partir de 25/05/2026.
O próprio MTE divulgou um Guia de informações sobre Fatores de Riscos Psicossociais Relacionados ao Trabalho (ano 2025), em que descreve:

A inclusão dos riscos psicossociais, além dos habituais riscos físicos ou biológicos, vem exigir que as empresas ajustem seus programas de saúde e segurança no trabalho, para adotar postura proativa na avaliação e implementação de uma cultura organizacional que, efetivamente, cuide das pessoas, promovendo um ambiente de trabalho saudável.
São inúmeras as soluções oferecidas no mercado para gerir esses riscos, bem como de publicações abordando a associação entre práticas de liderança e a saúde mental e qualidade de vida no trabalho. Em suma, lideranças mais preparadas previnem e reduzem sintomas depressivos, melhoram o clima organizacional e promovem a retenção de talentos, valendo dizer, que a inclusão dos riscos psicossociais na GRO não deve ser encarada apenas como custo, mas como imprescindível investimento.
Muitos holofotes sobre o papel das lideranças na construção de um ambiente de trabalho saudável, e, sem dúvida alguma, o treinamento constante dos líderes é uma das medidas que vai garantir a boa gestão dos riscos psicossociais, cabendo destacar que o objetivo primordial da fiscalização será o de confirmar quais medidas proativas as empresas adotarão, e não a mera documentação ou divulgação de intenções, desacompanhadas de ações práticas.
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Mas, e quem cuida de que cuida? Quem vai colocar a máscara de oxigenação no líder? Afinal, ele também sofre, certamente em maior proporção, as pressões por desempenho, números e compliance, como também carrega suas próprias angústias de ser humano. Como cuidar do líder que projeta uma postura íntegra, de ânimo, de produtividade, de acolhimento dos liderados, mas que precisa também expor sua vulnerabilidade e ser acolhido?
Os resultados da 7ª Edição da Pesquisa Inteligência Emocional & Saúde Mental no Ambiente de Trabalho, realizada em conjunto pela “The School of Life” e pela “Robert Half – Talent Solutions” são, no mínimo, impactantes, porque mostram em números expressivos, o aumento de casos de uso de medicação para tratar transtornos psicológicos por parte dos líderes, de 8% em 2024, para 52%, em 2025.
Uma das conclusões da pesquisa é de que os líderes não se sentem seguros em expor alguma necessidade de tratamento ou afastamento de ordem psicológica, pelo temor de penalização, e com isso, se calam. Um trecho do estudo expõe de forma muito clara essa situação:

Esta breve análise quer apenas ressaltar que, além de atentar para as novas obrigações legais impostas pela NR-1, é preciso pensar em mudanças estruturais que valorizem as pessoas, de todos os cargos, líderes e liderados, criando um ambiente em que todos se sintam seguros em expor sintomas ou efetivo adoecimento de ordem psicossocial, sem sofrer qualquer tipo de estigma, preconceito ou penalização.
Os bons líderes não apenas influenciam a produtividade técnica, mas criam condições que podem prevenir ou evitar adoecimento psicológico. Investir em formação de gestores, em mudanças nas condições de trabalho e numa cultura de efetivo apoio, não traduz apenas conduta ética, mas sim estratégica, para reduzir afastamentos, promover retenção e valorizar a imagem da empresa.

Ana Claudia Moro é Consultora Jurídica da Associação Brasileira das Empresas de Software (ABES).
*Artigo originalmente publicado no IT Forum em 24 de dezembro de 2025

