Por Jamile Sabatini Marques
Quando falamos em cidades inteligentes, é comum que o debate se concentre em sensores, aplicativos e soluções digitais que soam inovadoras, mas não necessariamente resolvem problemas públicos. A tecnologia, nesse contexto, é meio — e não o fim. O que realmente transforma cidades e determina resultados é a capacidade dos governos de formular boas políticas públicas, utilizar dados de forma estratégica e integrar a inovação à rotina concreta dos serviços urbanos.
Essa mudança de enfoque ganha força com a Política Nacional de Economia de Dados (PNED), uma política de caráter nacional que estabelece as bases de interoperabilidade e governança para que dados não pessoais — públicos e privados — circulem com segurança entre órgãos governamentais, setores produtivos e cadeias industriais. Em outras palavras, a PNED define os fundamentos institucionais de um ambiente orientado por dados no país. Ao padronizar requisitos técnicos e incentivar a integração entre sistemas, reduz barreiras históricas de fragmentação, destrava valor econômico e fortalece a autonomia do Brasil no uso estratégico de seus próprios dados.
A mobilidade urbana evidencia esse potencial. Quando um sistema de transporte passa a operar com dados de bilhetagem eletrônica, controle de frota em tempo real e planejamento orientado por evidências, a cidade começa a entender melhor suas dinâmicas sociais com muito mais precisão. Identifica horários críticos, gargalos ocultos, padrões de deslocamento, perfis de usuário e necessidades que dificilmente emergiriam exclusivamente pela percepção humana. E é essa inteligência — a capacidade de transformar dados em ação pública — que permite ajustar linhas, reduzir falhas operacionais, aumentar segurança e ampliar o acesso da população a serviços essenciais.
Da mesma forma, em iniciativas de transformação digital, três camadas precisam avançar juntas: infraestrutura, serviços e habilidades — alicerçadas por uma cultura organizacional preparada e por equipes públicas capacitadas para operar e sustentar essas mudanças. Investir em redes, sistemas ou plataformas digitais é fundamental, mas esses recursos passam a ter valor real quando servidores, cidadãos e empresas conseguem utilizá-los de forma efetiva. Uma cidade verdadeiramente inteligente é aquela que simplifica processos, melhora a experiência do usuário e reduz desigualdades. Isso significa pensar a tecnologia como meio — e de modo acessível, humano e inclusivo.
Outro ponto decisivo para 2026 será a convergência entre inovação e financiamento. Um país continental, com realidades tão distintas, precisa de instrumentos financeiros que apoiem a transformação digital das cidades — e eles existem. Há linhas de crédito específicas para infraestrutura digital, programas que financiam serviços e automação, mecanismos de incentivo para municípios sustentáveis e chamadas públicas voltadas à experimentação de tecnologias em escala municipal. A grande oportunidade está em fortalecer a elaboração de projetos bem estruturados e promover maior integração entre quem financia, quem desenvolve soluções e quem executa políticas públicas. E é justamente esse conjunto de condições que transforma tecnologia em solução concreta.
Nesse sentido, a aproximação entre a ABES e a Caixa representa um passo importante na direção certa — um movimento que enaltece a necessidade de conectar ecossistemas que historicamente atuaram de forma isolada. Tecnologia, gestão pública e financiamento precisam se encontrar no mesmo lugar para que soluções se tornem viáveis, financiáveis e, sobretudo, úteis.
Se quisermos cidades verdadeiramente inteligentes, precisamos conciliar a vitrine tecnológica com as prioridades da gestão pública. É necessário compreender que o coração da inteligência urbana está em três pilares: dados que orientam decisões, governos capazes de implementar e sustentar políticas de longo prazo e ecossistemas inovadores conectados às necessidades reais da população.
Mais do que isso: cidades inteligentes são cidades humanas. São espaços onde mulheres se sentem mais seguras ao circular, onde o transporte público funciona, onde serviços digitais poupam tempo e criam novas oportunidades, onde a tecnologia apoia a inclusão e onde a infraestrutura urbana responde a desafios climáticos crescentes.
O Brasil tem condições de avançar. O setor público tem demandas claras; o setor privado tem soluções maduras; e as instituições financeiras têm instrumentos de financiamento capazes de impulsionar transformações profundas. Colocar esses elementos em cooperação é o movimento que definirá o ritmo dos próximos anos.
A ABES segue comprometida em reduzir desigualdades por meio da tecnologia — e em conectar empresas, governos e instituições para que o país progrida de forma sólida. Porque cidades inteligentes não nascem da tecnologia em si: nascem da capacidade de usá-la com propósito, como ferramenta a serviço das pessoas, com eficiência e visão de futuro.
E é exatamente isso que 2026 exige de todos nós.

Jamile Sabatini Marques é Diretora de Inovação, Fomento e Pesquisa da Associação Brasileira das Empresas de Software (ABES).
*Artigo originalmente publicado no IT Portal em 9 de dezembro de 2025



