Artigo por Jamile Sabatini Marques, diretora de Inovação, Fomento e Pesquisa da Associação Brasileira das Empresas de Software (ABES)
O debate sobre financiamento de projetos públicos costuma se concentrar na ideia de escassez de recursos. No entanto, ao analisar com seriedade o cenário orçamentário e as oportunidades disponíveis, fica evidente que o principal gargalo das cidades brasileiras está longe de ser a falta de dinheiro e, sim, a dificuldade de estruturar projetos robustos, tecnicamente defensáveis e alinhados às exigências legais, ambientais e fiscais que se intensificam a partir de 2026. O que ouvimos de especialistas em orçamento público aponta para esse diagnóstico: propostas bem formuladas têm caminho, têm instrumentos e encontram fontes de financiamento. O problema é que poucas atendem ao padrão de consistência necessário.
Há recursos destinados à inovação urbana, sustentabilidade, infraestrutura digital, eficiência energética e modernização de serviços. Existem editais, linhas de crédito e mecanismos federais que permanecem subutilizados por falta de projetos maduros o bastante para se enquadrar nas regras. O orçamento acolhe boas ideias; ele rejeita ideias mal estruturadas. É por isso que 2026 se desenha menos como um ano de novos recursos e mais como um ano de nova responsabilidade técnica. A transformação digital de cidades, por exemplo, avança de forma efetiva quando a proposta apresenta estimativas claras de impacto, aderência a diretrizes nacionais, viabilidade ambiental, capacidade de execução e governança mínima. Inovar exige cumprir ritos legais — e cumpri-los com profundidade.
Essa constatação evidencia uma percepção cada vez mais clara e promissora: tecnologia, gestão pública e financiamento têm potencial para gerar muito mais impacto quando atuam de forma integrada. A aproximação entre ABES e Caixa reforça exatamente esse entendimento. Trata-se de fomentar a inovação enquanto se fortalece a conexão entre quem financia, quem formula e quem executa. A Caixa dispõe de instrumentos, experiência e orçamento; o ecossistema de tecnologia possui soluções maduras e capazes de gerar impacto; os municípios têm demandas urgentes que dependem de estruturação adequada para chegar ao papel. Quando esses três lados se encontram, as ideias passam de intenção a iniciativas financiáveis.
O que 2026 exige dos gestores públicos é clareza técnica. Projetos de mobilidade baseados em dados, melhorias de segurança apoiadas por tecnologia, modernização administrativa, infraestrutura digital e políticas ambientais deixam de ser desejos abstratos e passam a exigir formulação precisa. Eles necessitam ser construídos com rigor: custos bem definidos, indicadores de desempenho, cronogramas viáveis, alinhamento ao Plano Plurianual, estimativas de manutenção e impactos comprováveis. A lógica é simples: quem apresenta um bom projeto tem acesso aos recursos; quem não apresenta, permanece preso à percepção de que “não há dinheiro”.
A ABES, nesse contexto, atua como uma articuladora essencial. Oferecemos apoio qualificado que potencializa o acesso ao financiamento. Aproximamos empresas que dominam tecnologia de prefeituras que precisam de soluções; conectamos gestores a instrumentos financeiros que eles desconhecem; ajudamos a transformar intenção em proposta e proposta em execução. O futuro das cidades brasileiras, portanto, será definido menos pela quantidade de recursos disponíveis e mais pela capacidade de formular projetos bem estruturados, sustentáveis e fiscalmente responsáveis.

Artigo por Jamile Sabatini Marques, diretora de Inovação, Fomento e Pesquisa da Associação Brasileira das Empresas de Software (ABES)
*Artigo originalmente publicado no Guia do PC em 8 de dezembro de 2025



